Rede de relações: a perda de uma espécie pode modificar um ecossistema

Rede de relações: a perda de uma espécie pode modificar um ecossistema

Rede de relações: a perda de uma espécie pode modificar um ecossistema

Sem determinadas espécies, o ecossistema muda de funcionamento e pode perder funções essenciais para a natureza e para as pessoas

A natureza funciona como uma rede de relações entre animais, plantas, fungos, microrganismos e o ambiente onde vivem. Em um ecossistema, cada espécie desempenha funções que ajudam a manter esse equilíbrio. Quando uma delas desaparece, os efeitos podem se espalhar pela cadeia de vida e alterar processos que sustentam desde a produção de alimentos até a qualidade da água.

Segundo especialistas, essas mudanças nem sempre são imediatas ou visíveis, mas podem se acumular ao longo do tempo e modificar o funcionamento do ambiente.

“Um ecossistema não é apenas um conjunto de espécies reunidas num lugar. É o conjunto dos seres vivos somado ao ambiente físico onde eles vivem, com o solo, a água, a luz, o clima e sobretudo as relações entre essas partes. Um ecossistema não é uma coleção, é um sistema em funcionamento”, explica a ecóloga Ima Vieira, pesquisadora do Museu Goeldi e membro da Academia Brasileira de Ciências (ABC).

Ela afirma que esse funcionamento depende de processos como polinização, dispersão de sementes, reciclagem de nutrientes, decomposição da matéria orgânica e controle natural das populações. “A primeira coisa que se perde quase nunca é outra espécie. É uma tarefa, aquilo que nós, ecólogos, chamamos de função ecológica. O ambiente continua ali, aparentemente o mesmo, e passa a funcionar de outro jeito”, diz.

O professor Reuber Albuquerque Brandão, do departamento de Engenharia Florestal da Universidade de Brasília (UnB), destaca que nem todas as espécies têm a mesma importância para esses processos.

“Algumas espécies podem executar funções semelhantes, o que aumenta a capacidade de o sistema suportar impactos. Mas, dependendo da espécie que desaparece, o ecossistema perde processos importantes, como controle de pragas, formação do solo e reciclagem de nutrientes”, acrescenta.

A bióloga Vanessa Staggemeier, professora do Departamento de Ecologia da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN), destaca que em alguns casos, uma única espécie exerce um papel tão importante que sua ausência desencadeia um efeito cascata. Esses organismos são conhecidos como espécies-chave. “Quando essas espécies desaparecem, a abundância e a riqueza da comunidade são alteradas”, explica

Vanessa cita como exemplo os peixes limpadores encontrados em recifes de coral. “Eles removem parasitas e outros organismos da pele de diversas espécies marinhas. Quando desaparecem, a quantidade e a diversidade de peixes que frequentam esses ambientes diminuem”, afirma.

Outro exemplo ocorre quando predadores de topo deixam de existir. Sem eles, espécies intermediárias podem aumentar em excesso, alterando o equilíbrio da cadeia alimentar e afetando organismos de níveis inferiores.

Na Amazônia, a caça de grandes mamíferos, como antas e macacos, reduz a dispersão de sementes de árvores de grande porte. Ima explica que, aos poucos, essas árvores deixam de se renovar, enquanto espécies menores e de crescimento rápido passam a ocupar seu lugar, modificando a composição da floresta.

Os efeitos também podem se acumular ao longo dos anos. Segundo a ecóloga, há situações em que o desaparecimento de uma espécie acaba levando outras à extinção.

“A forma mais direta é a coextinção, quando uma espécie depende inteiramente de outra, como certos parasitas e insetos que polinizam uma única planta. Mas o caminho mais comum é indireto e mais lento. A perda de uma espécie muda a comunidade ao longo das décadas e, no fim, leva outras junto”, afirma.

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